O xampu sagrado da felicidade

© 2012 Frans Mensink

Então era dengue, não gripe. Mais sobre isso amanhã; hoje estou a fim de contar uma historinha. Sobre história (badum-shhhh…!)

Parece incrível, mas eu de fato dei aula de história em colégio por um tempo há alguns anos. Uma vez eu estava dando uma aula sobre a Indochina — o assunto era a estrutura filosófica hindu — e um aluno me perguntou se eu acreditava naquilo (nos sete passos para atingir o Nirvana e tal). Prevendo que uma hora alguém faria a pergunta (sempre fazem em qualquer aula que envolva filosofia ou teologia exóticas) saquei minha resposta pronta nada politicamente correta do bolso: eu respondi que nunca havia tentado seguir aquelas idéias e, apesar de querer realmente dizer “mas eu já tentei outras religiões e elas são todas igualmente estúpidas”, ao invés disse:

“Talvez você possa tentar um dia, e aí você me diz”. Aluno catolicozinho, claro, riu desconfortável com cara de quem quer dizer “é engraçado porque é impossível”. Peguei a deixa.

Muitas pessoas saem por aí, passando anos tentando se encaixar nas mais variadas religiões, tentando se encontrar, tentando descobrir a religião que os levará à felicidade. Felizmente (com o perdão ao trocadilho), algumas dessas pessoas, no fim, descobrem que não precisam de religião nenhuma para ser felizes. Você quer ter uma religião? Ótimo, vá em frente, tenha sua religião, mas eu não acho que você deveria escolher uma como condicio sine qua non para ser feliz, porque isso geraria uma dependência em você, e todos sabemos como dependências definitivamente não levam à felicidade.

É claro que qualquer líder religioso vai negar minha afirmação e tentar lhe vender a idéia de que você precisa da [insira sua religião aqui] para ser feliz e que sem ela você nunca o será, mas ele não está nem um pouco interessado na sua felicidade; assim como um vendedor de xampu, que quer que você pense que você só será feliz usando o xampu dele, na verdade tudo o que ele quer é que você pense que precisa dele, quando na verdade é ele quem precisa de você. A felicidade não está no xampu; talvez a felicidade passe pelo xampu, talvez você goste de sua felicidade com xampu, mas se um dia você decidir que não quer mais ter xampu em casa, você não precisa ser, necessariamente, menos feliz por conta disso. Quem decide isso é você, não o vendedor de xampu — e definitivamente não o líder religioso, que só está interessado em seu dízimo e poder dizer o que você deve ou não fazer com seu cabelo.

Talvez eu nunca saiba que a ficha caiu para alguns daqueles trinta e poucos alunos. É provável que a maioria, se não todos, voltou para suas casas católicas, evangélicas e espíritas ao fim do dia e só se lembraram da parte que eu disse que cairia na prova. Mas, se a ficha caiu para ao menos uma criança, e daqui há vinte anos haja menos um ser humano no mundo enroscado nos tentáculos teológicos, considero minha missão cumprida para aquele ano todo.

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